O contrário do perfeito

Geeeeente, faz muito tempo que não venho aqui... Senti ate um friozinho na barriga... Mas lá vai, um texto idiota que escrevi há muito tempo, já que desde o meu último post venho sofrendo com aquele tal de bloqueio criativo, sabe como é, né? De qualquer forma, sinto saudades. Muitas, na verdade.

"Perfeito. Uma palavra tão feia... E, neste caso, feio é uma palavra tão perfeita...
Por que há de uma coisa ser perfeita se é a imperfeição que forma a personalidade de cada um? Então o que as pessoas querem seria uma cabeça sem face? Ou uma face sem a cabeça?
Por que admirar um par de olhos verdes e lábios vermelhos se pode-se admirar lábios verdes e olhos vermelhos?
Pra que uma pessoa meiga e inteligente se pode-se ter uma meia e detergente?
Pra que escrever textos bonitos e frases coerentes, se você pode olhar a tela em branco e dançar seus dedos nela até ver no que dá? Pra que reclamar se não sair bom - porque não saiu -, se você pode salvar pra mais tarde ler e se divertir com a própria incoerência? Porque incoerência é uma imperfeição, e imperfeições são bonitas de se ver, perceber. Assim sendo porque sendo, o contrário do perfeito. Imperfeito."

Mais uma introdução ao mistério da imaginação de cada um.

Quase sempre imagino histórias sobre gente que nunca existiu. Na maioria das vezes, histórias de amor intensas e envolventes, mas dificilmente com um final feliz. E esse é o meu problema com os leitores novos – eles gostam de finais felizes, mas eu trabalho com a realidade. Bem, não exatamente assim, mas vamos lá.
Quando achei o chaveiro com o rosto dessa mulher, que viria a se tornar Carolina de Aragão, perguntei-me a quem pertencia tal rosto tão lindo e delicado, e o que esta havia feito para se ter tantos adornos com o seu rosto gravado neles. Certamente teve uma história de vida incrível – só me restava saber qual.
Antes que comecem e me repreender, sim, eu pensei em perguntar às vendedoras, mas então qual seria a graça? A imaginação é a ferramenta que ergue o homem às alturas, e é de lá a melhor vista.
E foi colocando a minha cabeça para funcionar que descobri quem foi a mulher do chaveiro. Seu nome é Carolina de Aragão, e vou lhes contar a sua história e a do seu maior amor.

de 2/11/2010

Era uma tarde chuvosa de quinta-feira, a água escorria pelas janelas dos carros, tornando difícil enxergar a estrada à sua frente. Na calçada, eu olhava as vitrines do outro lado da rua, e então, meu rosto se contorceu em dúvida. Apertei os olhos para enxergar melhor. Achei que tinha visto algo brilhando – um brilho incomum, que me atraía cada vez mais de curiosidade, quase emudecendo o barulho da cidade à minha volta que comemorava algo que até então eu era incapaz de compreender.
A água encharcava meu cabelo e escorria pela minha face. Minhas roupas já grudavam no corpo, os automóveis faziam barulho na pista com suas buzinas nervosas, a maioria ansiosa para chegar logo em casa e dar continuidade à comemoração com uma garrafa de champanhe na mão e a calçinha da namorada na outra. E foi ignorando pensamentos como este que pus os pés no asfalto, movida pela curiosidade ainda sobre aquele ponto luminoso.
Eu já estava na metade do meu caminho até o outro lado da rua quando, por instinto, olhei para a minha esquerda e tive a imagem do exato momento quando o motorista se distraiu com algo bastante irritante no telefone ao seu ouvido. Pude ver sua boca se abrindo para gritar com a pessoa com quem falava, mas tudo o que ouvi, alguns instantes depois, foi o som paralisante do freio imediato do carro e ruídos de algo se quebrando que realmente não sei de onde vieram. Daí eu parei de olhar, pois o carro estava perto demais e tive medo de que me machucasse, mas chocada demais para me mexer. Estava frio.
Foi assim que eu morri.

Melancolia proposital

Jovem. Jovem e saudável, ser humano íntegro, inteiramente humano é esse ser. Ser que ama, e, como todos os seres, ama amar. E, como todo bom poeta, sobre isso ele pára e escreve.
Mas sendo tão saudável esse ser humano que ama amar, por que sofre por amor? Sofrer faz mal... Mas pelo mal o humano é atraído. Só não precisa necessariamente ao sofrimento adotar por tanto tempo.
Jovem, saudável poeta de poemas apaixonados pela menina que nunca conheceu, não se deixe levar pelos sonhos ao ponto de sonhar ser levado por eles. Assim está se entregando aos braços do vento e sofrimento, dois pais da angústia e nostalgia pelo que nunca se teve e que jamais encontrará.
Melancolia proposital. Não se deixe levar por tal.
 
Para o Thomas,
Kal.

Divagar devagar... Divagações de uma sexta à tarde

Vontade de escrever quando não consigo na verdade pensar em nada para escrever.
Sozinha, mas acompanhada.
Ao longe, alguém mexe o suco com o canudo. Uma garota mexe no cabelo e o garoto deixa o seu rêgo à mostra. Eca.
Pessoas rindo e batendo palmas, eu não sei o porquê.
Eu me pergunto o que aquela pessoa que há pouco passou se pergunta. Eu sei que ela não se pergunta o que eu me pergunto, por isso nunca vai saber que eu me pergunto o que ela se pergunta. Mas o que ela se pergunta?
Alguém me olha e desvia o olhar.
Se eu prestar atenção, posso ouvir até mesmo os passos daquele porteiro lá do outro lado da rua.
Ninguém vem me buscar, esqueceram de mim.
Um pombo mexendo a cabeça pra frente e para trás, uma conhecida minha chegou na escola atrasada. Ela olha pra mim e eu sorrio pra ela. Por que ela não sorri de volta?
Que diferença há entre um sorriso e um silencioso rosnado? Ambos mostram os dentes.
Que são os dentes?
Onde ele está? O que aconteceu ontem depois que eu me fui?
Que pombo lindo.
O garoto o assustou batendo com o pé no chão de propósito. Por que ele fez isso?! Eu quis dar um murro no garoto!
Me diga então, que diferença há entre homens e animais?
Ambos agem sem pensar, e jamais pensam no que fazem.
Que custa pedir desculpas? Admitir que errou. É o que diz aquele professor. Porque, antes de tudo, ele é educador, e sabe o que diz.
O pombo assustado voltou.
Ele cisca o chão em busca de alimento. Há uma pipoca na sua frente, mas ele não a come. Porque quando o alimento é grande demais e a boca de menos, não adianta alimentar. E eu não falo de pombos e pipocas.
Uma mulher bonita e arrumada andando na calçada. O cara sujo e sem camisa passa em sua bicicleta suja e sem pedal, olhando para ela. Mas o que custa sonhar?
Uma garota entra e diz "boa tarde" ao porteiro.
Gostei dela.
Uma aluna sem farda?
Preciso ir ao banheiro, mas minha carona chegou.

Lá, cá, acolá... Bah!

Eu não sei bem quem sou. Essa é a maior verdade da minha vida, e hoje eu declaro a vocês a minha derrota. Não que eu tenha desistido de viver, mas desisti de viver tentando controlar a vida. Esta, que de minha parte é uma bagunça total. Aquela bagunça organizada, onde só mesmo o dono dela a pode entender.
Eu sou a dona da minha bagunça, e digo que nela se encontram pedaços de Cazuza, cacos de Renato, trapos de alguns professores que passaram pela minha vida – ou eu pela deles –, e mais um monte de papéis picotados onde podem ser identificadas mais mil pessoas que admiro, pessoas que me inspiram a cada dia um pouco mais.
Antes de tudo, preciso contar uma coisa a vocês. Sabem eu, esta pessoa que vos escreve? É, pois é, eu não sou eu. Eu não sou eu, primeiramente porque não sei quem sou, e não tenho certeza de que se soubesse ainda o seria com tanta naturalidade... Mas enquanto vivo essa doce dúvida amarga, absorvo um pouco de tudo o que vejo, tudo o que ouço. E faço isso porque sou fraca. Ou forte, ainda não sei.
Meu Deus, há tanta coisa a aprender!
Eu sempre fui uma pessoa muito sensível à informações e emoções alheias, o que me torna quase uma esponja já podre de tanta sujeira misturada com sabonete de morango... Em filmes, por exemplo, se simpatizo com o personagem, eu simplesmente o absorvo e passo a me sentir como ele durante as próximas doze horas. Se ele chora, eu choro. Se ele enlouquece, enlouqueço também.
Se leio um livro, lá está a droga do meu cérebro esponjoso novamente, sugando tudo o que meus olhos avistam nas infinitas linhas que definem o caráter do personagem, e então se ele é forte, eu sou forte. Se é fraco...
E não sei mais onde eu queria chegar com esse texto. Mas acabei de assistir o filme de Cazuza, e meu lema durante as próximas 12 horas é vida louca... Então, pra quê chegar a algum lugar? Já estive ali e aqui, estou cá, e – creio eu – um dia chegarei lá. Mas enquanto no papel o lá ainda for lá, esse dia jamais chegará.